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Crônicas
Postado por  Oscar Gaspar |  05/01/2010 | 10:37:04
Trauma de Infância
Oscar R. Gaspar

Eu me lembro que um homem grandão, de olhos claros e cabelos que chegavam aos ombros, sempre aparecia, ali pelo meio da tarde, quando todos estavam fora. Menos ela. Que ficava na varanda com ele só o tempinho do homem pedir um pouco de água.
Aí os dois entravam no rumo da cozinha, onde ficava, sobre um cepo, a talha que, diziam, mantinha a água sempre fresca, com aquele gostinho leve de barro que lembrava água de mina. Era o que diziam os adultos. Que para mim eram apenas injustamente maiores do que eu.
Quando me deixavam engatinhar pela cozinha, chacoalhava calças, puxava saias e olhava, sugestivo, para o imenso e misterioso objeto. Achavam engraçado, riam, às vezes me abraçavam. Mas não me davam daquela água. Só de um potinho menor, que tinha bico brilhante - filtro, diziam.
Aquela coisa imensa e barriguda, de onde todos, menos eu, bebiam com tanto gosto, é o mais remoto registro de minha consciência. E também a noção primordial de injustiça, de exclusão e impotência. E, por isso, o mais primevo desafio, o mistério pelo qual juntei as primeiras e difusas luzes da razão às réstias de um sentimento informe de mágoa e desamparo. Hoje sei, porém, que era o germe macabro e mágico do desejo, que se inocula na alma à medida em que ela se liberta(?) de seu estado genuinamente instintivo e se transmuta em racionalidade.
Ao mobilizar as primeiras vontades lúcidas para beber daquela fonte inacessível, eu repetia - só agora sei disso, claro - a mesma aventura da transgressão cometida por Adão no Éden. E reproduzia a mesma saga do desafio à ordem estabelecida, da afronta ao impedimento fixado, movido pelo desejo da descoberta, da revelação do mistério suspeitado.
Por isso, quando no meio das muitas tardes aquele homem infinitamente alto e de cabeleira loura e desgrenhada chegava, eu me agitava no cercadinho de madeira onde me punham a brincar sobre pelegos. Acho que no princípio era puro instinto e, depois, aos poucos, consciência, clareza ainda impossível de ser pronunciada: eu sabia que logo os dois entrariam e se entregariam, poderosos, ao deleite dos mistérios daquela talha. E beberiam, beberiam...
Mal entravam, eu começava os meus protestos. Chorava, pedia ag... ag... ag... Às vezes a mãe vinha com minha canequinha. Eu não queria daquela, cuspia, babava, trancava a boca. Sabia que não era da talha. Então minha mãe voltava para dentro. E ficava outro tempo que me parecia eterno.
Depois os dois saíam e brincavam comigo na varanda. O homem então me pegava no colo. Tenho remotíssima lembrança de ouvi-lo me chamando de “meu filho”, “saco roxo do papai”, coisas assim. Mas disso já não tenho tanta certeza hoje. Como também pode ser apenas um ardil da memória a imagem que tenho de seus olhos tristes quando me dizia aquelas coisas que eu já não tenho certeza que de fato disse.
Só sei que um dia os dois estavam lá dentro quando meu pai chegou e nem me olhou quando gritei “pa... pa...” Entrou com uma coisa que brilhava nas mãos. Escutei gritos e uns estouros. Também gritei, claro. Como qualquer criança assustada e só. Depois meu pai me abraçou e me largou logo nos pelegos. Parece que também chorava, mas já não sei. Montou e sumiu. Quando os outros chegaram teve ainda mais barulho. Eu chorava alto. Alguém me pegou de qualquer jeito, levou-me à cozinha. Vi minha mãe caída. Tinha sangue no rosto dela. O homem grandalhão parecia maior ainda, dobrado sobre o cepo onde antes ficava a talha dos meus desejos, agora desfeita em cacos, água e sangue empapando os cabelos de minha mãe.
Passaram-se anos até que eu entedesse o significado das imagens que guardei, confusas, daquele dia. Nunca mais vi meu pai. Aliás, até hoje não sei se meu pai matou ou foi morto junto com minha mãe. Isso agora já não tem importância. Só uma coisa ainda hoje me dói: a mágoa de nunca ter bebido daquela talha. Às vezes ainda sonho com cacos espalhados numa cozinha imensa e vazia. E acordo com uma sede acabrunhante. Trauma de infância, dizem.



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Em sua opinião, quais das medidas seriam mais pedagógicas contra a corrupção:
Criar mecanismo legal que obrigue todos políticos que exerçam ou tenham exercido mandato, em qualquer instância ou esfera, abrir o histórico da formação de seu patrimônio nos últimos vinte anos.
Conferir independência aos Tribunais de Contas em relação ao Legislativo, para que tenham autonomia constitucional efetiva.
Modernizar a Lei para que valores usurpados sejam logo confiscados e transformados em recursos para o combate à corrupção.
Nenhuma delas.
 
 
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