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Campo Grande/MS, 09 de Setembro 2010
   
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Antão Cançado
Delegado aposentado, especialista em violência doméstica.
Dedica-se ao estudo da solidão como causa da criminalidade.
Postado por   Antão Cançado |  30/11/2009 | 09:29:59
A (in)segurança pública
Eu queria mesmo era estar ocupando esse espaço virtual com assuntos de minha especialidade, que é a violência doméstica e essas coisas relativas à solidão etc e tal.
Porém, não dá para não falar da violência das ruas, da tragédia provocada pela expansão do consumo de drogas, com o tráfico cada vez mais forte e atrevido.
No artigo passado já falei sobre a necessidade de mobilização de nossos políticos para conseguir meios mais eficazes para que as forças policiais consigam barrar, pelo menos em parte, o trânsito do narcotráfico em nossas fronteiras com Paraguai e Bolívia.
Por que será que esses deputados estaduais, federais e senadores, sempre tão emplumadinhos para posar de papagaio de pirata ao lado do primeiro mandão que aparece, não têm um lampejo, mínimo que seja, de bom senso para propor algo como uma ‘frente de combate ao narcotráfico’ que reúna Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso?
Será que a insensibilidade dessa gente é tão grande quanto sua falta de criatividade a ponto de impedir que se toquem para a dramática gravidade desse problema? Será que senadores, deputados federais e integrantes dos legislativos de três estados fronteiriços não teriam poder de pressão para ‘brigar’ por investimentos no combate ao narcotráfico em nossas longas fronteiras secas e desguarnecidas?
Não buscar a construção de pacto legislativo regional em torno de uma causa tão urgente quanto popular, como é cada vez mais o combate ao narcotráfico, é falta de responsabilidade cívica e de compromisso ético com a sociedade. E, claro, miopia ou cegueira eleitoral das mais graves. Ou alguém não vê que uma iniciativa dessa natureza resultará em prestígio eleitoral, em voto?
E por falar em falta de visão, chega a comover a ingenuidade com que vários governadores se empenham, de uns tempos para cá, em colocar egressos da Polícia Federal – ex-superintendes, delegados da ativa ou aposentados – à frente Secretaria de Segurança Pública.
Se o cara vem do Judiciário ou do Ministério Público, vá lá, o chamado ‘público interno’ ainda tolera com alguma resistência. Mas se a figura é chamada da Polícia Federal para chefiar a segurança pública estadual, aí consegue o milagre de unir a ‘coronelada’ com a cúpula e os delegados da Polícia Civil – todo mundo a postos para boicotar o intruso.
Aqui, em Mato Grosso, no Rio ou em Rondônia, onde quer que uma figura oriunda da Polícia Federal assuma a Secretaria de Segurança, o ‘impossível acontece’: os ‘cabeças’ da Civil e da Militar se unem, o processo de corrosão se instala até que espremer o ‘berne’ invasor.
No caso de Mato Grosso do Sul, o prazo de validade do ex-superintende da Polícia Federal, Wantuir Jacini, na secretaria de Segurança Pública já estourou há muito tempo. Em boa parte pelo boicote ‘velado’ que só ele não vê.
Até mais.


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Postado por   Antão Cançado |  24/11/2009 | 10:36:02
Fronteiras abertas
Vez por outra vejo algum colega da ativa, seja um titular de delegacia importante, mais central, seja de um município pequeno e perdido nas lonjuras, reclamando da falta de estrutura para trabalhar, da falta de condições para investigar etc e tal.
Toda vida foi assim. Agora parece que está pior porque o crime, a bandidagem, ficou mais ousada, a modernidade chegou também para eles, os bandidos. E a custo zero. Custo zero para esses facínoras, pois muitas vezes para ‘ganhar’ um carro para levar para o Paraguai ou a Bolívia e trocar por droga ou arma, eles matam sem o mínimo escrúpulo. E então, o ‘custo’ para a família, para toda a sociedade, é o de uma ou mais vidas.
A Folha de S. Paulo trouxe no domingo uma reportagem sobre a falta de controle policial na fronteira Brasil-Bolívia, por onde, diz a polícia carioca, passa boa parte das armas ‘de guerra’ que abastecem as ‘forças armadas’ do tráfico.
É verdade que as nossas fronteiras, apesar de algum esforço do governo e da grande dedicação das polícias civil, militar e federal, continua sendo quase um território de livre trânsito para a criminalidade.
Com contingentes mínimos nas regiões fronteiriças mais atrativas para traficantes – que internalizam armas e drogas e ‘exportam’ carros roubados, moeda forte no ‘câmbio do crime – e sem equipamentos à altura, como helicópteros, carros anfíbios e uma rede móvel de suporte inteligente (laser, visão noturna etc), a Polícia Federal faz o que pode.
As polícias Militar e Civil, e também a Rodoviária Federal e até nossa Polícia Ambiental se empenham. Mas o poder da bandidagem é maior, sua ‘capacidade de investimento’ é infinita – já que assaltos e tráfico são fontes ‘gratuitas’ para eles – e a mobilização de nossos políticos por garantir fronteiras mais seguras é uma vergonha.
Como delegado aposentado, não tenho medo de dizer que esses nossos políticos, de vereador a governador, passando por deputados e senadores, acabam, por omissão, dando um belo incentivo ao crime.
Há pouco, o senador Delcídio Amaral, do PT, conseguiu assegurar que uma base aérea da Força Nacional de Segurança se instale na antiga Fazenda Itamarati, em Ponta Porá. Um passo importante. Que ninguém sabe direito quando se concretizará. Mas é muito pouco.
Se esses políticos dos dois Mato Grosso, mais os do Sudeste, que tanto se queixam de que as armas entram por aqui, se unissem mesmo, a distinta platéia acha que nossas fronteiras não poderiam estar muito melhor guarnecidas? Claro que estariam.
Às vezes me bate um saudade danada do coronel Adib e seu DOF .
Mas esse é assunto pra outra hora.


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Postado por   Antão Cançado |  15/11/2009 | 23:58:06
Todos votam na OAB
Ainda não será hoje que vou mirar a arma de minha competência no tema que me trouxe a esse tal de blog, que é a violência doméstica e outros artigos e parágrafos, alíneas e tal.

Acontece que a disputa em torno da OAB estadual, cujo desfecho se dá nesta segunda-feira, não deixa espaço para outro assunto. Mesmo para quem não tem nada a ver com o Direito, advocacia, Judiciário e por aí afora.

No meu caso, cursei Direito numa faculdade de quinta – a categoria era de quinta, porque aula mesmo só tinha aos sábados e domingos, uma vez por mês, claro – só mesmo para cumprir o quesito que já exigia que delegado tinha de ser bacharel.

Pois não há de ver que mesmo eu, que sempre tive um conceito nada lisonjeiro de advogados – mal a gente punha a mão num bandido perigoso ou num malandro pé-de-chinelo e lá vinha um nobre causídico para devolver o cujo à rua... Até eu, dizia, estou empolgado com essa eleição. E com um despeito danado de não ter registro na OAB.

É da causar inveja a outras categorias, algumas até mais arrogantes que a dos advogados, como a dos médicos, que uma eleição corporativa possa mobilizar boa parte da opinião pública. Ou, pelos menos, da elite – que é, aliás, quem interessa, na minha modesta opinião.

Aliás, um amigo meu, escrivão aposentado que me ajudou a lavrar muito flagrante de vagabundos perniciosos – sobre os quais mal tínhamos tempo de aplicar algum corretivo ético e moral antes que um data vênia nos confrontasse com um hábeas corpus – em uma opinião original sobre essa mobilização toda: “Tem muito parente e aderente de marginal preso que está usando adesivo de candidato em troca dos serviços profissionais de advogados que são cabos eleitorais de candidato ‘a’ ou ‘b’”, diz ele.

Pode até ser. Se em toda disputa eleitoral o importante é passar a idéia do já ganhou para intimidar os adversários, baixar o moral, então até faz sentido.

Esse amigo me conta que dia desses sua empregada – e não me venham com a hipocrisia de chamar doméstica de ‘secretária’ – chegou dizendo que já tinha candidato a presidente da OAB.

Ele mastigou a gargalhada e quis saber como ela votaria numa eleição que é só para advogados. E quem falou em votar, devolveu a mulher. “Eu toda vida tive candidato pra prefeito, deputado, governador e presidente. Nunca votei. Nem nunca tive título. O povo diz que título protestado dá até cadeia...” Ele viu que a falar de voto, título e cidadania com a empregada era tiro n’água, caso perdido.

Mas o bolo todo apenas confirmava o alto grau de mobilização social que a eleição da OAB provoca.

E aqui pra nós: eu que sempre achei que há exageros e maneirismos nessa coisa de “estado democrático de Direito”, às vezes me pego pensando que essa festança toda da OAB só chama a atenção de todo mundo porque o advogado é um operador do Direito – sem o que as instituições, incluindo a democracia, não existem.

Vou parar por aqui, senão meus antigos companheiros de carreira vão achar que eu boiolei depois de velho.
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Postado por   Antão Cançado |  12/11/2009 | 15:26:45
Violência e solidão
Atenção, senhoras e senhores. O meu perfil já informa quem eu sou.

Pra começo de conversa, só entrei nessa história de blog devido à insistência de alguns colegas delegados, tanto da ativa como aposentados como eu, que acham que eu tenho estilo pra comentar e criticar.

Não quero ser chamado ‘blogueiro’ e acho esse negócio de twitter e tuiteiro coisa de narcisista que quer contar sua vidinha ridícula como se fosse uma odisséia. Mas isso é assunto pra depois.

Agora aqui na estréia eu quero tratar de assuntos de minha especialidade – violência e solidão.

Dediquei toda a minha vida profissional ao combate à violência. E, claro, nem sempre dá pra combater a violência com uma rosa na mão para se contrapor à mão bandida que aponta uma ‘doze’ para você.

Particularmente, nunca fui adepto dessas frescuras de tratar bandido com ternura. Já mandei rosas pra bandido, sim... Deixa pra lá.

Hoje, quando vejo o governo Puccinelli literalmente liberando os policiais para atirar em bandido que “reagir”, me bate um despeito danado de não estar mais em atividade. Todo mundo sabe que no jargão policial “bandido bom é bandido morto”.

Só que para o público em geral ninguém é doido de dizer isso. Todo mundo prefere a hipocrisia. Aí vem um governador e, felizmente, cada vez que dá mais arma e munição para a polícia, é como empreiteiro distribuindo ferramenta no pé da obra: “Aí, moçada, faça bom proveito.”

Muitos, é claro, não entendem direito esse apoio moral do governador. Agora mesmo fico sabendo de um delegado que mandou bala no cachorro da vizinha. Será que esse colega tem coragem de trocar tiro com traficante na fronteira? Policial que se respeita pode, no mínimo, arrumar encrenca com esses chatos dos direitos humanos, não com a sociedade protetora dos animais.

Dito isso, nem deu para eu explicar direito o modus operandi aqui da coluna. Fica pra próxima.

Só quero dizer que, aposentado há anos, para evitar que meu ócio virasse puro ódio, passei a estudar a solidão como causa da violência. Tenho conclusões interessantes e polêmicas. Psiquiatras, psicólogos e analistas de diversas correntes e tendências torcem o nariz para minhas conclusões. Estou me lixando para eles.
Até outra.
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Em sua opinião, quais das medidas seriam mais pedagógicas contra a corrupção:
Criar mecanismo legal que obrigue todos políticos que exerçam ou tenham exercido mandato, em qualquer instância ou esfera, abrir o histórico da formação de seu patrimônio nos últimos vinte anos.
Conferir independência aos Tribunais de Contas em relação ao Legislativo, para que tenham autonomia constitucional efetiva.
Modernizar a Lei para que valores usurpados sejam logo confiscados e transformados em recursos para o combate à corrupção.
Nenhuma delas.
 
 
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